Um estudo sobre o bullying e o cyberbullying no ambiente escolar entre os adolescentes antes e durante a pandemia de COVID-19

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Trechos do relatório da aluna Sabrina de Sousa Macedo, que realizou um projeto de pesquisa contemplado com Bolsa de Iniciação Científica Júnior (CNPq/FEBRACE) em 2021 e 2022. Posteriormente, o trabalho foi apresentado na Feira Brasileira de Jovens Cientistas, onde recebeu o Prêmio ABRIC de Incentivo à Ciência. O relatório completo pode ser acessado aqui.

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Introdução

Em todo o mundo, o assédio em ambiente escolar, particularmente o bullying, tem se constituído um problema cada vez maior. Segundo a Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco),  “um em cada três alunos em todo o mundo foi vítima de bullying, com consequências arrasadoras no desempenho escolar, na saúde física e mental” (FRAINDENRAICH, 2020).

No Brasil, atentados cometidos por adolescentes vítimas de bullying têm se tornado cada vez mais frequentes. No ano passado, um jovem de 18 anos vítima de bullying matou quatro pessoas em uma escola da cidade de Saudades, em Santa Catarina (BARROS; NEVES, 2021). Em 2019, na maior rede de ensino do país - São Paulo -, dois adolescentes também vítimas de bullying entraram uma escola em Suzano e mataram 8 pessoas e feriram 11. Depois, eles cometeram suicídio. Segundo uma pesquisa realizada pelo psiquiatra americano Timothy Brewerton (INSTITUTO HUMANITAS UNISINOS, 2011), em uma parte considerável dos ataques em escolas que ocorreram no mundo de 1966 a 2011, a maioria dos atiradores sofriam bullying e agiram pelo desejo de vingança.

Durante a pandemia, o bullying entre os alunos da rede pública estadual paulista tem aumentado. A Folha de S. Paulo mostrou que, de acordo com 

dados da Secretaria da Educação de São Paulo, nos dois primeiros meses de aula deste ano, foram registrados 4.021 casos de agressões físicas nas unidades estaduais —48,5% a mais que no mesmo período de 2019. Também houve crescimento de 52% de ocorrências de ameaça e de 77% de casos de bullying nas escolas estaduais em relação a 2019 (PALHARES, 2022).

Também segundo uma pesquisa realizada em 2021 com 110 mil alunos do Ensino Fundamental II e da terceira séria do Ensino Médio, 30% disseram que foram vítimas de bullying nos últimos 30 dias por causa da aparência do corpo ou do rosto” (g1, 2021).

Em particular, entre os adolescentes, o bullying ocorre principalmente na escola e “compreende todas as atitudes agressivas, intencionais e repetidas, que ocorrem sem motivação evidente, adotadas por um ou mais estudante contra outro(s), causando dor e angústia, sendo executadas dentro de uma relação desigual de poder” (NETO, 2005). Diversos estudos têm avaliado a incidência de bullying nas escolas, tentando também identificar o perfil das vítimas e dos agressores.

Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde Escolar (PeNSE) de 2019,

12,0% dos estudantes praticaram algum tipo de bullying contra o colega. Foi observado que esse percentual era proporcionalmente maior entre os estudantes do sexo masculino (14,6%) do que do feminino (9,5%). Proporcionalmente maior também entre os alunos de escolas privadas (13,5%) do que entre as públicas (11,8%)... Em relação as vítimas do bullying, 23,0% dos escolares afirmaram que duas ou mais vezes se sentiram humilhados por provocações dos colegas nos 30 dias anteriores à pesquisa. Os percentuais foram maiores entre as meninas (26,5%) do que entre os meninos (19,5%) (IBGE, 2019, p. 41-42).

A tese de Souza (2018) mostrou que “os alunos classificados como alvo ou autores de bullying apresentaram maiores problemas de comportamento quando comparados aos não envolvidos no fenômeno’’, e o que o ‘’envolvimento com o bullying é maior entre adolescentes que usam substâncias psicoativas”.

Já segundo a dissertação de Carvalho (2014), os alunos entre 11 e 13 anos da rede pública de São Paulo que “sofrem bullying geralmente são pouco sociáveis, têm poucos amigos, são inseguros, passivos, retraídos e ansiosos”. Isso é corroborado por Porfírio, para quem as crianças e adolescentes que cometem bullying têm como alvo “alguém considerado mais frágil”. Ele continua: “O ambiente escolar é propício para a formação de grupos sociais, e os grupos que não se encaixam podem ser vítimas de bullying. Essa aceitação é feita de acordo com características físicas e aceitação”.

Com o avanço da tecnologia na sociedade, outro assédio que vem sendo frequente nos últimos anos é o cyberbullying. Durante a pandemia, com a maior parte das redes de ensino do mundo passando para o ambiente virtual em algum momento, isso se intensificou. Segundo relatório da Organização Mundial da Saúde publicado em agosto de 2020, “..durante a pandemia da Covid-19, e com o consequente fechamento das escolas, nós observamos um aumento em manifestações de violência e ódio online – e isto inclui o bullying” (PINHEIRO, 2020).

Isso tende a agravar outros problemas desencadeados pela pandemia, particularmente para a saúde mental. Uma pesquisa divulgada no ano passado mostrou que 22% dos jovens brasileiros “se sentem deprimido ou desanimado para fazer as coisas” (UNICEF, 2021). O aumento do desemprego e da pobreza pode também diminuir “o bem-estar mental dos pais, das crianças e dos adolescentes . Com a pandemia, outro cenário comum é o de luto familiar. Ele acarreta em transtornos mentais em 25% das crianças, sendo que os jovens podem desenvolver distúrbios internalizadores’’ (Mata, Silva, Bernardes et al, 2021) Tudo isso o que pode aumentar os potenciais alvos de bullying e cyberbullying.


Objetivo

O objetivo deste projeto de pesquisa é avaliar a incidência do bullying e do cyberbullying entre os alunos da E.E. Prof. Manuel Ciridião Buarque, tanto antes quanto durante a pandemia.

Para isso, foi elaborada a seguinte pergunta-chave: A pandemia alterou a prática de bullying e cyberbullying na Escola Estadual Prof. Manuel Ciridião Buarque?


Justificativa

Este trabalho se justifica por todos os problemas que o fechamento de escolas causado pela pandemia de COVID-19 teve sobre a saúde mental de crianças e jovens. Dentre esses problemas, podem estar as práticas de bullying e cyberbullying entre crianças e adolescentes, tanto aumentando essas práticas quanto essas práticas aumentarem os problemas de saúde mental das crianças e jovens.


Hipóteses

Para responder à pergunta-chave foram elaboradas duas hipóteses:

Hipótese 1: O contexto da pandemia fez com que o cyberbullying aumentasse pela intensificação do uso de aparelhos digitais;

Hipótese 2: No contexto da pandemia, os alunos passaram a cometer mais bullying, uma vez que a pandemia intensificou os problemas de saúde mental dos alunos.


Metodologia

A pesquisa foi realizada na Escola Estadual Prof Manuel Ciridião Buarque. É uma escola exclusiva para o Ensino Médio, com 518 alunos entre 14 e 19 anos de idade matriculados no ano letivo de 2022.

Para testar as hipóteses do trabalho, foi elaborado um formulário no ‘’Google Forms’’ com 15 questões, que foi encaminhado por WhatsApp para os grupos de representantes de turma de cada série, que, por sua vez, encaminhou o formulário para o grupo de WhatsApp de alunos de cada turma. O formulário ficou disponível para os alunos responderem entre 30 de março e 25 de Abril de 2022.

As questões do formulário procuraram avaliar o impacto da pandemia em relação ao bullying e o cyberbullying. Procuramos saber também sobre o perfil de quem sofre e comete essas práticas em relação ao gênero, orientação sexual e etnia. Inicialmente, foram incluídas questões sobre a renda e a religião dos alunos para saber se a incidência de bullying e o cyberbullying poderiam variar em função desses fatores. Porém, em função de muitos alunos não saberem a renda familiar e de se considerar que a religião dos alunos não seria um fator mais preponderante do que os outros, acabou-se por não tentar estabelecer uma correlação entre eles e a prática de bullying e cyberbullying.


Conclusão

Conforme o resultado do formulário enviado aos alunos, verificamos que o bullying e o cyberbullying na escola E.E. Prof. Manuel Ciridião Buarque diminuiu durante a pandemia. Sendo assim as hipóteses foram refutadas. Verificamos também que os resultados desta pesquisa se contrapuseram a diversos estudos publicados que colocam a pandemia como um contexto mais propício ao bullying e ao cyberbullying.

Há várias possibilidades para isso ter acontecido. Embora tivemos um significativo número de participantes (149 estudantes), eles representam 28,8% dos alunos da escola, o que pode significar que os alunos que responderam não serem os que cometem bullying ou cyberbullying. Ao mesmo tempo, considerando particularmente que esses 28,8% dos alunos são uma amostra significativa dos alunos da escola, ao contrário do que estudos têm mostrado, a pandemia pode ter alterado o comportamentos alunos de maneira que essas práticas diminuíram.

Porém, pudermos verificar que quem mais foi afetado pela pandemia foram as meninas e os bissexuais. Verificamos que quem mais comete bullying são os meninos, pessoas heterossexuais e os pardos. Enquanto quem mais já sofreu bullying são os meninos, os bissexuais, os brancos e os pardos. Os alunos que mais sofrem cyberbullying são as meninas, os bissexuais e os pretos. Por fim, quem mais comete cyberbullying são os meninos, pessoas heterossexuais e pretos.

É importante ressaltar que o trabalho abre possibilidades para diversas frentes de estudo. Sendo assim, seria importante continuar o trabalho para saber a razão de não ter aumentado o bullying e o cyberbullying na escola, e para estudar mais afundo o perfil do agressor e da vítima dessas práticas.